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O preço dos ovos

Short story

Um rapaz que ia embarcar procurou uma refeição numa estalagem. A dona informou-o de que só tinha ovos cozidos. Ele pediu uma pequena porção, comeu os ovos e entregou uma moeda de valor superior ao preço. Como a mulher não tinha troco, disse-lhe que pagasse quando voltasse a passar por ali.

Na terra para onde viajou, o homem costumava dar esmolas pelas almas do purgatório, esperando ajudá-las a alcançar o céu. Pedia-lhes, em troca, que o ajudassem. Se junto delas via uma representação do diabo, dirigia-se também a ele, mas com outro pedido:

—Tu, diabo, nem me ajudes nem me estorves.

Passados alguns anos, regressou à sua terra e apresentou-se na estalagem para pagar a antiga dívida. Recordou à dona o pequeno valor dos ovos que comera antes de partir.

Ela achou que o pagamento não podia ficar por aí. Seis ovos teriam dado seis galinhas, argumentou, e essas galinhas teriam posto muitos outros ovos. Fez calcular os ganhos que imaginava ter perdido. A conta chegou a centenas de milhares de réis, uma soma que o viajante não possuía. Por não conseguir pagar, foi parar à cadeia.

No dia em que ia receber a sentença, surgiu um desconhecido às grades da prisão. Perguntou se não havia ninguém que o socorresse e prometeu comparecer no tribunal para o defender.

Cumpriu a promessa, mas chegou com a cara suja e enegrecida. O juiz perguntou-lhe se não podia ter-se lavado antes de se apresentar.

—Estive a assar umas castanhas para as semear num terreno e formar um bosque —explicou o homem.

A dona da estalagem interrompeu imediatamente:

—Ora essa! Castanhas assadas dão castanheiros?

O desconhecido voltou-se para o juiz. A própria mulher acabava de mostrar o erro da sua conta: exigia o preço de pintos e galinhas a partir de seis ovos que já estavam cozidos. Tal como as castanhas assadas, não podiam dar origem ao crescimento que ela imaginava.

O juiz aceitou a defesa e pôs o viajante em liberdade. O seu advogado era o diabo.


English summary · includes the ending

Before sailing abroad, a young man eats boiled eggs at an inn. The owner cannot change his coin, so she tells him to pay when he returns. Abroad, he gives money for the souls of the dead and asks their help, while telling the devil neither to help nor trouble him.

Years later, the innkeeper demands a fortune. She calculates how many hens and further eggs the original six eggs could have produced. Unable to pay, the traveller is imprisoned.

A stranger promises to defend him. He reaches court with a dirty, blackened face and explains that he has been roasting chestnuts to plant a wood. The innkeeper objects that roasted chestnuts cannot grow into trees.

The defender applies her own argument: boiled eggs cannot produce chickens either. The judge frees the traveller. His unexpected lawyer is the devil, whose help he had previously said he did not want.

Adapted for Lejrbål from the credited source.
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