Português BR / C1
O reformador do mundo
Américo Pisca-Pisca não conseguia olhar para coisa alguma sem descobrir um defeito. Em sua opinião, o mundo estava errado, e a natureza dava provas constantes de falta de inteligência. Num pomar, encontrou um exemplo que lhe pareceu suficiente para encerrar qualquer discussão.
Ali se erguia uma jabuticabeira enorme, sustentando frutas pequeninas. Um pouco adiante, uma abóbora colossal permanecia presa ao caule de uma planta rasteira. Para Américo, a desproporção entre as plantas e os frutos denunciava uma organização absurda.
— Não seria lógico que acontecesse justamente o contrário? — argumentou. — Se a reorganização do mundo dependesse de mim, eu não hesitaria: passaria as abóboras para a jabuticabeira e deixaria as jabuticabas na aboboreira. Não tenho razão?
E prosseguiu em suas considerações, convencido de ter demonstrado que tudo estava fora do lugar. Somente ele, ao que parecia, seria capaz de distribuir com inteligência as coisas da natureza.
Por fim, porém, interrompeu o raciocínio com uma proposta mais imediata: o melhor seria não pensar mais naquilo e aproveitar a sombra para tirar uma soneca. Piscando que não acabava mais, estendeu-se de barriga para cima debaixo das árvores.
Adormeceu e sonhou com o mundo novo que suas próprias mãos haviam reformado. A organização lhe parecia uma beleza, tão perfeita quanto imaginara antes de dormir.
Foi então que uma jabuticaba despencou e lhe acertou o nariz. Américo despertou de um pulo. Piscou, tornou a piscar e, dessa vez, submeteu à reflexão algo diferente dos supostos erros da natureza: o pequeno acidente que acabara de interromper seu sonho.
A conclusão o acompanhou no caminho de casa. Afinal, o mundo não era tão malfeito assim. Se a reforma que tanto defendera tivesse sido realizada, sua primeira vítima seria ele mesmo. Em vez de uma jabuticaba, teria recebido uma abóbora na cabeça, e aquela troca poderia muito bem tê-lo matado.
Diante disso, resolveu desistir das reformas. Que tudo permanecesse como estava: a disposição das plantas lhe parecia agora perfeitamente aceitável.
Américo Pisca-Pisca continuou a piscar pela vida afora; o que perdeu, a partir daquele dia, foi a mania de corrigir a natureza.
English summary · includes the ending
Américo Pisca-Pisca believes that the world is badly organised. In an orchard, he notices a large jabuticaba tree with tiny fruits and a low plant carrying a huge pumpkin. He thinks that the sizes should be the other way round. If he could improve nature, pumpkins would grow on the big trees, while the small fruits would grow near the ground.
After explaining his plan, he lies down in the shade and falls asleep. He dreams about the wonderful world he has created. Suddenly, a jabuticaba falls onto his nose and wakes him.
As he walks home, Américo understands the danger in his own suggestion. If a pumpkin had fallen instead of the little fruit, he could have been killed. He decides that nature is not so badly organised after all. He continues blinking, as his nickname suggests, but gives up trying to correct the natural world.
Adapted for Lejrbål from the credited source.
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