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A Igreja do Diabo

Medium-length story

Um antigo manuscrito beneditino conta que o Diabo resolveu fundar uma igreja. Seus lucros eram consideráveis e constantes, mas o humilhava o papel disperso que desempenhava havia séculos. Não dispunha de organização, regras, leis ou cerimônias próprias. Vivia das sobras divinas, dos descuidos humanos e dos favores ocasionais. Uma instituição sua permitiria combater as demais religiões e destruí-las de uma vez.

Teria escrituras, missas com pão e vinho em abundância, sermões, decretos e todo o equipamento religioso. Sua igreja acolheria todas as almas. Enquanto as outras se dividiam, ela permaneceria una: havia muitas formas de afirmar, mas apenas uma de negar tudo.

Encantado com a descoberta, o Diabo decidiu visitar Deus para anunciar o projeto e desafiá-lo. Abriu as asas com tamanho estrondo que o abismo estremeceu e lançou-se ao azul infinito.

Quando chegou, Deus recebia um velho. Os anjos que enfeitavam o recém-chegado interromperam o serviço. O Diabo declarou que não vinha buscar uma única alma, como a de Fausto, personagem que fizera um pacto com ele, mas todos os homens de todas as épocas. Antes de explicar o plano, recomendou que o velho recebesse o melhor lugar e os coros mais harmoniosos: em breve, seria um dos últimos a escolher o céu.

Deus perguntou se ele sabia o que aquele homem fizera. O Diabo não sabia, nem parecia interessado. Preferia anunciar que abriria uma hospedaria barata, enquanto o céu ficaria vazio por cobrar caro demais. Estava cansado de seu domínio acidental e improvisado. Vinha comunicar honestamente a mudança, para não ser acusado de agir às escondidas.

— Você veio anunciar, não pedir aprovação — observou Deus.

O Diabo concordou. Mas o amor-próprio gostava dos aplausos de um mestre, ainda que, nesse caso, se tratasse de um mestre vencido. Ia descer à terra e lançar os fundamentos da igreja.

Deus quis saber por que, depois de tantos séculos de insatisfação, só agora lhe ocorrera organizar-se. O visitante respondeu que acabara de concluir uma longa observação: muitas virtudes se assemelhavam a rainhas cujos mantos de veludo terminavam em franjas de algodão. Bastaria puxar essas franjas para arrastá-las à nova instituição. Depois delas viriam as mais puras.

Começou então a enumerar as fraquezas escondidas sob a devoção. Nos templos, encontravam-se as mesmas roupas da moda, os mesmos cosméticos e os mesmos olhares curiosos das ruas e dos salões. Benfeitores faziam questão de divulgar em letras impressas as roupas, botas e moedas que distribuíam. Um dirigente religioso levava ao peito, nas procissões, tanto o amor a Deus quanto a própria condecoração.

Os anjos davam sinais de tédio. Miguel e Gabriel olharam suplicantes para o Senhor, que interrompeu a exposição. O Diabo estava sendo banal. Moralistas de todas as épocas já haviam repetido aquelas acusações; sem força nem originalidade para renová-las, seria melhor calar-se. Até o velho parecia cansado. E sabia o visitante o que ele fizera?

O homem tivera uma vida honesta e uma morte sublime. Durante um naufrágio, prestes a salvar-se numa tábua, avistara um casal recém-casado lutando contra a morte. Entregara aos jovens o seu meio de salvação e desaparecera nas águas. Não houvera plateia, apenas o mar e o céu. Onde estaria a franja de algodão desse sacrifício?

O Diabo respondeu que era o espírito da negação. Negava tudo: até o ódio à humanidade poderia assumir aparência de caridade. Para quem detestasse os homens, deixá-los vivos seria uma maneira de odiá-los. Deus perdeu a paciência com as distinções engenhosas e mandou-o embora. Que fundasse sua igreja e recolhesse quantas franjas desejasse, mas partisse.

Na terra, o Diabo vestiu um hábito beneditino, roupa de excelente reputação, e começou a anunciar uma doutrina extraordinária. Prometia prazeres terrenos, glórias e satisfações íntimas. Admitia ser o Diabo, mas pretendia corrigir a imagem criada pelas histórias assustadoras. Não era o terror das crianças: era o espírito da natureza, afastado dos corações por um nome difamado. Convidava os ouvintes a transformar esse nome em bandeira e prometia dar-lhes tudo.

As multidões chegaram. Ele passou então do entusiasmo aos princípios. As virtudes reconhecidas seriam substituídas por outras, consideradas naturais e legítimas. Orgulho, luxúria e preguiça recuperariam a honra. A avareza seria a mãe robusta da economia, uma filha magra e enfraquecida.

A cólera encontrava defesa na literatura: sem a ira de Aquiles não existiria a Ilíada. A gula também inspirara páginas de Rabelais e versos do poema cômico O Hissope. Quanto ao romano Lúculo, lembravam-se mais de seus banquetes que de suas batalhas. Fora a mesa que o tornara imortal. Além disso, independentemente dos livros, quem negaria que comer bem era melhor que mastigar alimentos desagradáveis ou engolir a própria saliva durante o jejum? A vinha simbólica do Senhor seria substituída por uma vinha verdadeira, capaz de fornecer os melhores vinhos.

A inveja merecia o posto principal: trazia prosperidade e podia até dispensar o talento. A fraude era o braço esquerdo do homem; a força, o direito. Alguns eram canhotos, outros destros, e a nova igreja aceitava ambos. Excluía somente aqueles que não usavam nenhum dos braços.

A demonstração mais elaborada dizia respeito à venda dos princípios. Se alguém podia vender a casa, o boi ou o chapéu, bens exteriores à pessoa, por que não vender a opinião, o voto, a palavra ou a fé? Estes pertenciam-lhe ainda mais, pois constituíam sua própria consciência. Vendiam-se cabelos e até sangue para transfusão; por que conceder aos elementos físicos um direito negado ao caráter?

Estabelecido esse princípio, o Diabo expôs suas vantagens financeiras. Recomendou, contudo, praticar tudo às escondidas, para evitar a reprovação da sociedade. Assim se reuniam corrupção e hipocrisia, obtendo mérito duplicado.

Condenou o perdão das ofensas e incentivou a cobrança pela calúnia. Apenas quando a invenção de acusações brotasse irresistivelmente da imaginação seria proibido receber: cobrar, nesse caso, equivaleria a cobrar pelo suor. Também rejeitou o respeito, por favorecer alguma decência. O respeito interesseiro não precisava de exceção, pois já se transformava em simples bajulação.

Faltava romper a solidariedade. O amor ao próximo seria uma invenção de parasitas e negociantes falidos. Aos outros deviam-se indiferença, ódio ou desprezo. Citou até o espirituoso padre napolitano Galiani para negar a própria ideia de próximo. Admitiu somente o amor à mulher alheia, entendido como amor de si mesmo. Quando alguns discípulos consideraram isso abstrato, ofereceu uma comparação: cem acionistas participam de um banco, mas cada um cuida apenas dos próprios dividendos. Assim seriam os adúlteros. A explicação entrou no livro da sabedoria.

A previsão se cumpriu. As virtudes cujos mantos tinham franjas de algodão abandonaram suas antigas vestes e aderiram à igreja. As demais as seguiram. A doutrina alcançou todas as regiões, foi traduzida em todas as línguas e recebeu a aprovação do tempo. O Diabo gritava em triunfo.

Anos depois, porém, percebeu que numerosos fiéis praticavam clandestinamente algumas das velhas virtudes. Não todas, nem por inteiro, mas às escondidas. Gulosos comiam pouco em certas datas católicas. Avarentos davam esmolas à noite ou em ruas desertas. Ladrões do tesouro público devolviam pequenas quantias. Trapaceiros falavam sinceramente de vez em quando, conservando a expressão enganadora para que os julgassem ainda desonestos.

A investigação revelou casos espantosos. Um vendedor de remédios que envenenara uma geração usava os lucros para auxiliar os filhos das vítimas. No Cairo, um ladrão de camelos cobria o rosto para entrar nas mesquitas. Surpreendido pelo Diabo, negou qualquer devoção: pretendia roubar o camelo de um intérprete. Roubou-o diante dele, mas depois o deu ao homem que chamava os fiéis à oração, e este rezou por sua alma.

Um dos melhores apóstolos da nova igreja, calabrês de cinquenta anos, era mestre em falsificar documentos. Tinha casa magnífica, quadros, estátuas e biblioteca. Mentia tanto que preferia deitar-se a admitir que estava saudável. Ainda assim, não trapaceava no jogo e dava gorjetas aos criados. Fizera amizade com um padre e o procurava semanalmente numa capela isolada. Embora ocultasse seus atos secretos na confissão, fazia o sinal da cruz duas vezes, ao ajoelhar-se e ao levantar-se.

O Diabo mal podia acreditar em tamanha traição. Sem parar para comparar a descoberta com suas próprias observações antigas, voou ao céu, tremendo de raiva, em busca de uma explicação.

Deus ouviu tudo com infinita paciência. Não interrompeu, não censurou e tampouco se alegrou com a aflição do adversário. Apenas explicou: os mantos de algodão tinham agora franjas de seda, assim como antes os mantos de veludo acabavam em algodão.

— Que quer você, meu pobre Diabo? É a eterna contradição humana.


English summary · includes the ending

The Devil decides to create an organised church of his own. He tells God that people’s apparent virtues often hide selfish motives, which he can use to win them over. God points to an old man who died saving a young couple, but the Devil refuses to accept any example of pure goodness.

On earth, he teaches that pride, greed, envy, fraud and the sale of one’s principles are virtues. His church becomes popular everywhere.

Years later, however, he discovers that followers are secretly behaving well. Misers give money away, thieves return stolen funds, and even a dedicated forger refuses to cheat at cards. The Devil investigates, becomes furious and returns to God for an explanation.

God reminds him of his earlier argument: just as goodness contained traces of wrongdoing, wrongdoing now contains traces of goodness. The ending turns the Devil’s own image against him and points to the lasting contradictions in human behaviour.

Adapted for Lejrbår from the credited source.
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