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A Igreja do Diabo
Segundo um antigo manuscrito, o Diabo teve um dia a ideia de fundar uma igreja. Já conseguia muitos seguidores, mas vivia de maneira desorganizada, aproveitando as distrações e as fraquezas humanas. Queria regras, cerimônias, livros sagrados e uma instituição própria. Enquanto as outras religiões discutiam e se dividiam, a sua permaneceria unida: haveria muitas maneiras de afirmar alguma coisa, mas apenas uma de negar tudo.
Satisfeito com a ideia, decidiu anunciá-la a Deus. Bateu as asas e subiu do abismo ao céu.
Deus estava recebendo um velho quando ele chegou. O Diabo disse que pretendia conquistar não apenas uma alma, mas todas. Aconselhou o Senhor a dar um lugar excelente ao recém-chegado, pois em breve poucas pessoas escolheriam aquele destino. O céu seria como uma casa vazia por cobrar caro demais. Ele abriria uma pousada barata.
— Vim fundar uma igreja e acabar com meu governo improvisado — explicou.
Deus observou que ele tinha vindo anunciar o projeto, não pedir aprovação. O Diabo admitiu, embora gostasse de receber o aplauso de um mestre, mesmo de um mestre derrotado.
Antes de deixá-lo partir, Deus perguntou por que só agora havia pensado nisso. O Diabo respondeu que finalmente tinha concluído uma observação de vários séculos. Muitas virtudes pareciam rainhas com mantos de veludo terminados em franjas de algodão. Bastava puxar aquela parte inferior para trazer a pessoa inteira à sua igreja. Depois viriam até os mantos mais nobres.
Com isso, queria dizer que muita bondade escondia vaidade ou interesse. Citou pessoas que se exibiam nos templos e benfeitores que faziam questão de publicar suas doações. Continuou apresentando exemplos, até os anjos se mostrarem cansados.
Deus o interrompeu. Aquelas críticas eram antigas e repetidas. Então apontou para o velho que acabava de receber. Depois de uma vida honesta, ele havia morrido num naufrágio. Poderia ter se salvado numa tábua, mas viu um casal jovem prestes a morrer e entregou a eles seu apoio. Ninguém assistiu ao sacrifício, a não ser a água e o céu. Onde estava o interesse escondido?
O Diabo insistiu em negar. Até aquele gesto poderia nascer do ódio à humanidade: deixar os outros vivos seria condená-los à vida. Deus encerrou a discussão e mandou-o fundar sua igreja.
De volta à terra, o Diabo vestiu a roupa de um monge, aproveitando a boa reputação daquele traje. Começou a pregar uma doutrina nova. Prometia prazeres, glórias e todas as satisfações terrenas. Não escondia sua identidade. Pelo contrário, afirmava que as histórias assustadoras sobre ele eram mentiras feitas para afastá-lo das pessoas. Apresentava-se como o verdadeiro espírito da natureza e o pai de todos.
As multidões se aproximaram. Então ele explicou seus princípios: as antigas virtudes deveriam ser substituídas pelos comportamentos antes condenados. O orgulho, o desejo sexual e a preguiça mereciam respeito. A avareza seria apenas a mãe forte da economia, sua filha mais fraca.
Também defendeu a raiva e a gula. A primeira tinha inspirado grandes obras literárias; a segunda, páginas famosas e jantares mais lembrados que vitórias militares. Além disso, argumentava, era muito melhor comer bem do que jejuar. Em lugar de promessas simbólicas, oferecia vinho de verdade. A inveja, por sua vez, seria a principal virtude, capaz até de substituir o talento.
O Diabo descreveu a fraude como o braço esquerdo do ser humano, enquanto a força seria o direito. Alguns usavam mais um, outros mais o outro. Sua igreja aceitava todos, menos aqueles que não praticavam nenhuma das duas.
Sua defesa mais elaborada tratava da venda dos próprios princípios. Se alguém podia vender uma casa, um boi ou um chapéu, por que não vender uma opinião, um voto ou uma promessa? Essas coisas pertenciam à pessoa ainda mais profundamente. Se era permitido vender cabelos ou sangue, por que o caráter teria de ficar de fora?
Depois de defender esse direito, recomendou escondê-lo, por causa dos preconceitos da sociedade. Assim, o fiel praticaria ao mesmo tempo a corrupção e a hipocrisia, ganhando mérito em dobro.
A nova doutrina combatia o perdão. Incentivava as pessoas a receber pagamento para falar mal dos outros, exceto quando a vontade de inventar acusações fosse irresistível: nesse caso, cobrar seria tão estranho quanto cobrar por suar. Condenava o respeito, pois ele poderia produzir alguma decência. O respeito por interesse, porém, não causava problema, já que era apenas bajulação.
Por fim, atacou a solidariedade. Ninguém devia ao próximo mais que indiferença, ódio ou desprezo. Abriu uma exceção para o amor à mulher alheia, que definiu como outra forma de amor a si mesmo. Para explicar a ideia, comparou os amantes aos sócios de um banco: todos participavam do mesmo negócio, mas cada um pensava apenas no próprio lucro.
O sucesso foi enorme. A doutrina se espalhou pelo mundo e foi traduzida para todas as línguas. O Diabo acreditou ter vencido.
Muitos anos depois, porém, descobriu algo perturbador. Seus seguidores praticavam escondido algumas das antigas virtudes. Pessoas gulosas comiam pouco em certas datas religiosas. Avarentos davam esmolas à noite. Ladrões do dinheiro público devolviam pequenas quantias. Trapaceiros às vezes falavam com sinceridade, mantendo a expressão enganadora para não serem descobertos.
Havia casos ainda mais estranhos. Um vendedor que tinha envenenado muitas pessoas usava os lucros para ajudar os filhos das vítimas. Um ladrão de camelos frequentava uma mesquita com o rosto coberto. Quando foi repreendido, disse que pretendia roubar outro animal. Roubou-o diante do Diabo, mas o entregou depois a um religioso, que rezou por ele.
Um dos melhores seguidores do Diabo falsificava documentos e mentia até sobre a própria saúde. Apesar disso, não trapaceava nas cartas, dava gorjetas aos criados e procurava um padre toda semana. Não revelava suas ações secretas, mas fazia o sinal da cruz ao chegar e ao sair.
Furioso, o Diabo voltou ao céu para exigir uma explicação. Deus o ouviu com paciência, sem zombar de sua derrota. Depois respondeu que os mantos de algodão agora tinham franjas de seda, assim como os de veludo antes tinham franjas de algodão.
— Que quer você, meu pobre Diabo? É a eterna contradição humana.
English summary · includes the ending
The Devil decides to create an organised church of his own. He tells God that people’s apparent virtues often hide selfish motives, which he can use to win them over. God points to an old man who died saving a young couple, but the Devil refuses to accept any example of pure goodness.
On earth, he teaches that pride, greed, envy, fraud and the sale of one’s principles are virtues. His church becomes popular everywhere.
Years later, however, he discovers that followers are secretly behaving well. Misers give money away, thieves return stolen funds, and even a dedicated forger refuses to cheat at cards. The Devil investigates, becomes furious and returns to God for an explanation.
God reminds him of his earlier argument: just as goodness contained traces of wrongdoing, wrongdoing now contains traces of goodness. The ending turns the Devil’s own image against him and points to the lasting contradictions in human behaviour.
Adapted for Lejrbår from the credited source.
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